ALICE AYRES, OU JANE JONES, DE CLOSER – PERTO DEMAIS, REALMENTE DEMONSTRA CARACTERÍSTICAS DO TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE OU SOMENTE TRAÇOS?

Aviso: este texto conta detalhes importantes sobre a personagem, incluindo o desfecho do filme.

Quem é Alice Ayres, ou Jane Jones?

ALICE AYRES, OU JANE JONES, DE CLOSER - PERTO DEMAIS, REALMENTE DEMONSTRA CARACTERÍSTICAS DO TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE OU SOMENTE TRAÇOS?
Alice Ayres

Alice Ayres é uma personagem do filme Closer – Perto Demais, de 2004, vivida por Natalie Portman. Americana, ela aparece pela primeira vez sozinha nas ruas de Londres, logo depois de ser atropelada, e é a partir desse acidente que sua vida na cidade começa a se desenrolar. Ela trabalha como dançarina em um clube noturno e mantém, por quatro anos, um relacionamento intenso e cheio de idas e vindas.

O nome Alice Ayres não é o dela de verdade. Ela o retirou de uma placa vista em um parque de Londres, em memória de uma jovem que morreu salvando três crianças de um incêndio no século dezenove. Foi esse nome que ela escolheu para se apresentar ao mundo, sem nunca explicar por completo o motivo daquela escolha.

Só perto do final da história, um close no seu passaporte revela o nome verdadeiro: Jane Jones. Durante os quatro anos em que viveu como Alice, ela chegou a contar a verdade sobre sua identidade uma única vez, mas a pessoa que ouviu não acreditou. Antes de Londres, ela havia deixado os Estados Unidos pouco depois de terminar outro relacionamento, e esse padrão se repete ao longo de toda a sua trajetória: é sempre ela quem decide ir embora, sempre ela quem escolhe quando uma história chega ao fim, sempre ela quem recomeça em outro lugar com outro nome.

O público costuma associar Alice ao Transtorno de Personalidade Borderline por causa dessa mistura de mistério sobre o próprio passado, apego intenso a quem ela ama e reações emocionais fortes diante da instabilidade dos relacionamentos que vive. Personagens como ela, cheias de contradições e camadas que não se resolvem em uma única cena, funcionam como um convite à reflexão, não como um rótulo pronto para ser colado em alguém.

Como foi o passado de Alice?

O filme não mostra a infância de Alice nem explica em detalhes o que ela viveu antes de chegar a Londres. O que se sabe é que ela deixou os Estados Unidos logo depois do fim de um relacionamento, e que a mesma cena parece se repetir sempre que outra relação se aproxima do fim: ela parte antes de ser deixada.

Houve algum tipo de ruptura ou perda que a fez recomeçar tantas vezes, longe de tudo o que conhecia? A forma como ela evita falar sobre a própria origem sugere que sim, mesmo sem detalhes concretos sendo dados ao espectador sobre o que aconteceu antes daquele relacionamento nos Estados Unidos.

Alice parece sentir tudo de forma intensa. A alegria dos primeiros encontros e a dor diante de uma traição aparecem em extremos, sem meio termo, como se cada sentimento tomasse conta dela por completo enquanto dura.

Ela também age de forma impulsiva em momentos de sofrimento, indo embora sem aviso, aceitando ou recusando pessoas de um instante para o outro. E há, ao longo de toda a sua trajetória, a sensação de que ela busca em cada relacionamento algo que vai além do próprio relacionamento, uma espécie de porto fixo em meio a uma vida que ela mesma escolheu manter incerta.

Características do Transtorno de Personalidade Borderline em Alice

Alguns padrões de comportamento aparecem com força na trajetória dessa personagem.

Medo do abandono. Alice se apega fortemente à pessoa que ama desde o primeiro encontro e reage com intensidade a qualquer sinal de que ele possa se afastar, inclusive antecipando a rejeição antes mesmo dela acontecer de fato.

Perturbação de identidade. Ela vive sob um nome que não é o seu, construindo uma versão de si mesma para se apresentar ao mundo, enquanto sua história real permanece guardada e, em boa parte, desconhecida até para quem convive com ela.

Instabilidade emocional. As reações de Alice mudam de intensidade rapidamente, indo de momentos de leveza e afeto a explosões de dor e revolta assim que algo ameaça a relação em que ela investiu tanto.

Sentimento de vazio. Por trás da postura confiante que Alice mostra em público, existe uma sensação recorrente de incompletude, algo que fica sugerido na forma como ela busca em outra pessoa um sentido que parece nunca se firmar de vez.

Impulsividade em momentos de sofrimento. Diante da dor, Alice toma decisões rápidas, sem planejamento, como aceitar trabalhos que a expõem ou desaparecer de repente, sem dar explicações a quem fica para trás.

Afinal Alice tem TPB ou são só traços?

Ao reunir o medo do abandono, a perturbação de identidade, a instabilidade emocional, o sentimento de vazio e a impulsividade em momentos de sofrimento, Alice reúne uma quantidade de critérios que aponta para uma compatibilidade alta com o Transtorno de Personalidade Borderline, dentro do que a história decide mostrar dela.

Isso não significa, no entanto, que Alice, ou Jane, tenha esse transtorno de fato. Estamos falando de uma leitura possível a partir do que o roteiro escolheu revelar, e o roteiro sempre corta, seleciona e deixa coisas de fora. Um diagnóstico real precisa de várias conversas ao longo do tempo com um profissional qualificado, entrevistas cuidadosas e uma checagem completa da história de vida da pessoa, algo que nenhuma ficção consegue entregar por inteiro em pouco mais de cem minutos de tela.

O que fica é justamente essa densidade que torna Alice Ayres, ou Jane Jones, tão marcante dentro de Closer – Perto Demais. É a mistura entre mistério, intensidade e fragilidade que faz dela uma personagem tão lembrada, e talvez seja exatamente por isso que tanta gente se reconhece, mesmo que em pedaços, no que ela vive na tela.

Outras condições possíveis

Além dos traços de TPB, alguns comportamentos de Alice também podem levantar a possibilidade de outras questões associadas, sempre como hipótese e nunca como certeza.

O jeito como ela lida com a própria história, escondendo fatos e evitando revisitar o passado, pode remeter a sinais de transtorno de estresse pós-traumático, especialmente se considerarmos que algo significativo pode ter acontecido antes do início do filme e nunca é mostrado.

A alternância entre momentos de intensa vitalidade e episódios de tristeza profunda também pode sugerir traços de transtorno depressivo, presentes em vários momentos da segunda metade da história, quando as perdas se acumulam.

O hábito de manter distância emocional e de encerrar relações antes de correr o risco de ser abandonada por elas também pode remeter a traços de transtorno de personalidade evitativa, já que Alice parece preferir controlar o fim de cada história a viver a incerteza de esperar por ele.

É importante lembrar que essas condições costumam aparecer juntas na vida real, e reconhecer um traço não significa fechar o quadro todo. Cada pessoa é única, e o que vale aqui é abrir espaço para entender, não para rotular.

O que a história de Alice e Jane pode dizer sobre a sua própria vida

Se alguma coisa nessa análise fez sentido para você, vale parar um momento e pensar sobre isso com cuidado.

Reconhecer traços reais do Transtorno de Personalidade Borderline em si mesmo não diz nada sobre o seu valor como pessoa. São padrões que se formam ao longo da vida, muitas vezes em resposta a experiências difíceis, e não uma sentença definitiva sobre quem você é.

A boa notícia é que existe um caminho concreto para melhorar. Com acompanhamento de um profissional qualificado, é possível entender melhor os próprios sentimentos, lidar com eles de outra forma e alcançar mais estabilidade com o tempo. A terapia é esse caminho, e buscar ajuda é um passo que faz diferença de verdade.

Se você quiser continuar essa conversa, também estou por lá no Instagram, em @meuolharborderline, falando sobre esses assuntos quase todos os dias. E para quem quiser se aprofundar mais, também organizei tudo o que aprendi nesses anos no E-book Meu Olhar Borderline, disponível para quem tiver interesse.

Vale conhecer a história

Se você ainda não assistiu Closer – Perto Demais, vale a pena conferir com calma e formar sua própria opinião sobre Alice, ou Jane, e sobre o caminho que ela percorre até o final do filme. Cada pessoa enxerga algo diferente nessa jornada, e essa é justamente a parte mais interessante de assistir.

Cada intensidade merece ser olhada de perto

A intensidade emocional que Alice, ou Jane, carrega ao longo de Closer – Perto Demais pode ser um convite para prestar atenção em sentimentos parecidos na própria vida, caso eles existam. Entender melhor o que é o Transtorno de Personalidade Borderline ajuda a buscar o apoio certo, no momento certo. Reconhecer traços, mesmo que primeiro numa personagem de ficção, pode ser o primeiro passo de um caminho mais longo. E esse caminho, com terapia e tempo, costuma levar a uma melhora real, com mais estabilidade e mais paz no dia a dia.

FIM!

Disclaimer: Este texto é uma análise exclusivamente didática da personagem fictícia Alice Ayres, também conhecida como Jane Jones, com base em comportamentos observáveis na sua história. O objetivo é oferecer clareza sobre o Transtorno de Personalidade Borderline, ajudando quem se identifica com esse transtorno a reconhecer padrões, refletir com mais segurança e buscar terapia com um profissional qualificado. Nenhuma parte deste artigo deve ser interpretada como verdade absoluta, nem constitui diagnóstico, avaliação clínica ou opinião médica.

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